Odontologia - Tuberculose na Articulação Temporomandibular: um diagnóstico desafiador

Odontologia - 24.03.2025

Tuberculose na Articulação Temporomandibular: um diagnóstico desafiador

No Dia Mundial de Combate à Tuberculose, especialistas alertam para a importância do diagnóstico precoce em casos raros de acometimento da ATM

O Cirurgião-Dentista, como profissional de saúde, tem um papel crucial na identificação precoce de caso de Tuberculose na ATM
O Cirurgião-Dentista, como profissional de saúde, tem um papel crucial na identificação precoce de caso de Tuberculose na ATM

No dia 24 de março, celebra-se o Dia Mundial de Combate à Tuberculose, uma data dedicada à conscientização sobre essa doença infecciosa que continua sendo um problema global de saúde pública. Apesar de ser mais conhecida por seus efeitos no sistema respiratório, a tuberculose pode se manifestar de forma extrapulmonar, incluindo a região da cabeça e do pescoço. Um dos locais onde a doença pode se apresentar, ainda que de maneira rara, é a articulação temporomandibular (ATM), trazendo desafios diagnósticos para Cirurgiões-Dentistas e outros profissionais da saúde.

Segundo o autor de um dos artigos mais citados sobre tuberculose com manifestação extrapulmonar na ATM, Dr. João Paulo Tanganeli, que é coordenador de pós-graduação em DTM e Dor Orofacial na Faculdade de Odontologia da APCD (FAOA), a tuberculose “é uma das doenças mais antigas que acompanham a humanidade”. Com a introdução da antibioticoterapia, os casos diminuíram nas décadas de 1970 e 1980, mas houve um ressurgimento devido ao aumento de pacientes imunossuprimidos, incluindo aqueles com HIV. “Estima-se que ainda acometa entre 8 e 10 milhões de pessoas por ano, com cerca de um milhão de casos levando a complicações graves ou até mesmo à morte”, destaca.

A manifestação extrapulmonar da tuberculose ocorre em aproximadamente 10% dos casos, podendo afetar não apenas a ATM, mas também outros tecidos moles da região oral, como gengiva, língua e palato. Em algumas situações, as manifestações na ATM podem ser primárias, ou seja, anteceder os sintomas pulmonares, tornando o diagnóstico ainda mais desafiador.

A doutora em Biopatologia com ênfase em DTM e Dor Orofacial pela UNESP São José dos Campos, Dra. Irene Serafim explica que os sinais clínicos que podem levantar suspeita incluem dor persistente na região da ATM, que não responde a tratamentos convencionais para disfunção temporomandibular, inchaço e aumento de volume na área articular, limitação dos movimentos mandibulares, além de sintomas sistêmicos como febre, sudorese noturna, perda de peso inexplicada e fadiga. “Outro ponto de atenção são as fístulas e secreção purulenta na região da ATM, que podem indicar a presença de um processo infeccioso mais grave”, alerta a especialista.

A ausência de linfonodos aumentados, comum em outras infecções, também dificulta a suspeita clínica. “A histologia da ATM é diferente de outras articulações, o que faz com que os linfonodos nem sempre fiquem evidentes. Isso contribui para que o diagnóstico seja tardio e, consequentemente, o tratamento também seja retardado”, pontua o Dr. Tanganeli.

Por ser uma condição rara, a tuberculose da ATM pode ser confundida com outras patologias, como artrite séptica e reumatoide. A Dra. Irene destaca que exames de imagem desempenham um papel fundamental na diferenciação dessas condições. “A tomografia computadorizada (TC) é excelente para avaliar alterações na estrutura óssea e articular, enquanto a ressonância magnética (RM) é ideal para examinar tecidos moles, inflamações e abscessos”, ensina. Além disso, a ultrassonografia portátil pode ser uma alternativa acessível para avaliação rápida da presença de efusão articular e para guiar procedimentos de aspiração e biópsia, se necessário. “Esses exames, associados a testes laboratoriais e uma avaliação clínica detalhada, são essenciais para estabelecer um diagnóstico preciso”, completa a especialista.

Impactos no tratamento e formação profissional

Os pacientes diagnosticados com tuberculose na ATM podem enfrentar desafios no tratamento odontológico. Segundo o Dr. Tanganeli, a demora no diagnóstico pode levar a complicações mais graves. “O grande problema é que, se a infecção não for identificada a tempo, pode resultar em alterações degenerativas importantes na articulação, comprometendo sua funcionalidade”, ressalta.

Dra. Irene acrescenta que um dos riscos mais graves é a anquilose, ou seja, a fusão da articulação, levando a limitação de movimento mandibular. “A reabilitação desses pacientes deve envolver fisioterapia para preservar a mobilidade articular, terapia manual, dispositivos oclusais e acompanhamento multidisciplinar com fisioterapeutas e ortopedistas”, orienta.

Apesar da importância da tuberculose na ATM, muitos Cirurgiões-Dentistas não estão preparados para identificar casos suspeitos. “Infelizmente, muitos profissionais não sabem avaliar a ATM adequadamente, dentro da normalidade, e muito menos quando existe uma condição primária sistêmica, como a tuberculose”, afirma Irene. Para ela, é necessário incluir conteúdo específico sobre diagnóstico diferencial, treinamento em exames de imagem e maior interdisciplinaridade na formação odontológica.

O Dr. Tanganeli reforça que os Cirurgiões-Dentistas devem estar atentos a essa possibilidade. “A tuberculose extrapulmonar tem crescido significativamente nos últimos anos. O correto e precoce diagnóstico é essencial para evitar complicações graves e permitir um tratamento adequado. O Cirurgião-Dentista, como profissional de saúde, tem um papel crucial na identificação precoce desses casos”, conclui.

Por Swellyn França