Odontologia - 21.03.2025
O impacto da Odontologia na qualidade de vida dos pacientes com Síndrome de Down
Abordagem adaptada, prevenção e diagnóstico avançado garantem mais saúde e bem-estar

No Dia Internacional da Síndrome de Down (21 de março), reforça-se a necessidade de um atendimento odontológico especializado, que compreenda as particularidades desses pacientes e contribua para sua saúde, bem-estar e inclusão social. Além da prevenção e do tratamento de doenças bucais, a Odontologia pode influenciar diretamente na mastigação, na fala e até mesmo na respiração dos indivíduos com Síndrome de Down, tornando-se uma área essencial para a qualidade de vida desses pacientes.
A atenção odontológica a pessoas com Síndrome de Down exige um olhar especializado, que leve em conta não apenas as características bucais desses pacientes, mas também as questões sistêmicas e comportamentais. Segundo a especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais e Odontopediatria e diretora da Faculdade de Odontologia da APCD (FAOA), Dra. Sofia Takeda Uemura, esses pacientes podem apresentar alterações na forma, no número e na irrupção dos dentes, além de hipotonia lingual, maloclusão e uma maior predisposição à doença periodontal devido à deficiência do sistema imunológico. Além disso, cerca de 50% apresentam cardiopatias congênitas, o que pode exigir profilaxia antibiótica prévia em procedimentos odontológicos específicos. "O comprometimento cognitivo presente em graus variados pode dificultar a compreensão e execução das orientações para a higiene bucal, contribuindo para o medo e a ansiedade odontológicos. O atendimento precoce e o gerenciamento comportamental são fundamentais para que o paciente se adapte ao tratamento", destaca a especialista.
Atenção personalizada e estratégias de prevenção
A higiene bucal pode ser um desafio para muitos pacientes com Síndrome de Down, tornando fundamental o envolvimento de cuidadores e familiares na manutenção da saúde oral. "A orientação aos cuidadores deve levar em consideração a rotina familiar, garantindo que as medidas preventivas sejam viáveis. Além de ensinar as técnicas corretas, é essencial treinar os cuidadores na execução da higiene bucal", explica a Dra. Sofia. "Existem escovas elétricas, escovas de tripla ação, passadores de fio dental e bochechos fluoretados que podem auxiliar no dia a dia."
Para pacientes que apresentam grande resistência ao atendimento odontológico, a sedação consciente com óxido nitroso pode ser uma opção segura e eficaz. A especialista explica que essa técnica reduz a ansiedade e torna o tratamento mais tranquilo. "O óxido nitroso age no sistema nervoso central induzindo relaxamento e tranquilização, diminuindo o medo e a ansiedade. Como a dose pode ser ajustada durante o atendimento, trata-se de uma técnica segura, desde que aplicada por profissionais habilitados e com monitoramento adequado do paciente", enfatiza a Dra Sofia, que é Habilitada em Sedação com óxido nitroso/oxigênio.
DTM em pacientes com Síndrome de Down - Diagnóstico avançado e tratamento individualizado
Os pacientes com Síndrome de Down também podem apresentar disfunções temporomandibulares (DTM) e dores orofaciais. A DTM é um distúrbio multifatorial que pode afetar as articulações temporomandibulares, músculos associados ou ambos, comprometendo os movimentos da mandíbula. Segundo a pós-doutora em Diagnóstico Bucal e especialista em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial e em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais, Dra. Denise Sabbagh Haddad, que é diretora do departamento de DTM e Dor Orofacial do Conselho Científico (COCI) da APCD, estudos indicam que pacientes com Síndrome de Down podem ser mais suscetíveis a essas condições devido a fatores como hipotonia muscular, anomalias na articulação temporomandibular e bruxismo do sono e de vigília. "O Cirurgião-Dentista pode identificar sinais e sintomas de DTM por meio de uma avaliação clínica detalhada, seguindo questionários específicos para o diagnóstico, incluindo a observação de queixas de dor, relatos dos responsáveis, dificuldades na movimentação da mandíbula, estalos nas articulações e sintomas relacionados a dores de cabeça ou cervicais. Testes específicos, como a palpação dos músculos da mastigação, das articulações temporomandibulares e exames imaginológicos, podem auxiliar no diagnóstico."
O tratamento pode envolver várias abordagens, dependendo do tipo de DTM, incluindo terapias físicas, exercícios de relaxamento e alongamento muscular, fisioterapia com uso de calor ou frio, placas estabilizadoras, fotobiomodulação e orientações sobre hábitos posturais e parafuncionais.
Com os avanços da tecnologia, exames inovadores também auxiliam no atendimento desses pacientes. A termografia infravermelha, por exemplo, pode ajudar na identificação precoce de inflamações e dores, especialmente para indivíduos com dificuldades ou ausência de comunicação. "A termografia infravermelha permite a avaliação de variações de temperatura na superfície da pele, fornecendo informações diagnósticas valiosas sobre lesões musculares, articulares ou vasculares, processos inflamatórios e neuropatias. Os termogramas adquiridos podem ser avaliados de forma qualitativa e quantitativa, auxiliando em tempo real o diagnóstico e acompanhamento de tratamentos", explica a Dra. Denise.
Outro recurso essencial é o diagnóstico por imagem, que possibilita um planejamento odontológico mais eficaz e individualizado. "Os pacientes com Síndrome de Down frequentemente apresentam alterações estruturais orofaciais, como palato ogival, macroglossia aparente e más oclusões, que podem impactar diretamente a função mastigatória, fala e respiração. O diagnóstico por imagem é uma ferramenta essencial para avaliar essas condições com precisão. Radiografias, tomografias e até exames mais avançados, como a ressonância magnética, podem fornecer uma visão detalhada das estruturas ósseas, das articulações e dos tecidos moles. Com essas imagens, o cirurgião-dentista pode planejar intervenções ortodônticas ou cirúrgicas de forma mais eficaz, identificando previamente problemas estruturais e determinando a melhor abordagem para cada caso em pacientes colaboradores", acrescenta a especialista.
A Odontologia, portanto, desempenha um papel fundamental na qualidade de vida dos pacientes com Síndrome de Down. O atendimento especializado e a utilização de tecnologias avançadas garantem mais conforto, funcionalidade e inclusão social, reforçando a importância de um olhar atento e individualizado por parte dos profissionais da área.
Por Swellyn França