Pacientes em foco - 18.03.2025
Bactéria gengival e Alzheimer: um alerta para a saúde bucal
Estudo sugere que a infecção por Porphyromonas gingivalis pode estar relacionada à progressão da doença neurodegenerativa

A relação entre a saúde bucal e as doenças sistêmicas é um tema recorrente na Odontologia, pois, cada vez mais, pesquisas apontam a influência de bactérias bucais além da cavidade oral, impactando a saúde geral das pessoas.
Um estudo publicado na Science Advances em 2019 voltou à mídia recentemente devido à importância do tema. O trabalho intitulado Porphyromonas gingivalis in Alzheimer’s disease brains: evidence for disease causation and treatment with small-molecule inhibitors encontrou indícios da presença da Porphyromonas gingivalis, uma das principais bactérias associadas à periodontite crônica, no cérebro de pacientes com doença de Alzheimer. A descoberta sugere que infecções orais podem ter um papel na progressão da doença neurodegenerativa, levantando questões sobre o impacto da saúde bucal no envelhecimento cognitivo.
Apesar das evidências emergentes, o periodontista Dr. Ricardo Schmitutz Jahn, diretor do Departamento de Periodontia do Conselho Científico (COCI) da APCD e professor do curso de Odontologia da Universidade Santo Amaro, alerta que um papel causal exclusivo da P. gingivalis para o Alzheimer ainda é questionável. "As evidências não são definitivas. Mais estudos longitudinais precisam ser concluídos para confirmar essa hipótese. Atualmente, não há um tratamento eficaz para a doença de Alzheimer, nem uma única teoria que explique totalmente sua etiopatogenia", destaca.
Segundo o especialista, a saúde bucal e sistêmica estão frequentemente interligadas, compartilhando fatores etiopatogênicos, como inflamação, disbiose do microbioma oral, estresse, dieta e predisposição genética. “A doença periodontal já foi associada a diversas condições, como diabetes, doenças cardiovasculares, artrite reumatoide, doenças hepáticas e câncer”, aponta Jahn. Caso a hipótese da relação entre periodontite e Alzheimer se confirme, ele acredita que haveria um grande impacto na prática odontológica, reforçando a necessidade de prevenção e abordagem interdisciplinar desde os primeiros anos de vida do paciente.
Prevenção e cuidados bucais ao longo da vida
De acordo com a Odontogeriatra e presidente da Câmara Técnica de Odontogeriatria do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dra. Denise Tibério, a presença de P. gingivalis no cérebro de pacientes com Alzheimer já era um achado esperado pela ciência, considerando que bactérias da cavidade oral podem entrar na corrente sanguínea devido a processos inflamatórios. “É importante trabalhar na manutenção da saúde bucal antes que essas bactérias invadam a corrente sanguínea. Ou seja, a higiene bucal deve ser acompanhada desde a tenra idade, criando-se hábitos e adaptando técnicas de higiene à medida que envelhecemos”, enfatiza.
O envelhecimento traz mudanças que afetam a higiene oral, como polifarmácia, redução da saliva e comprometimentos visuais e motores. Esses fatores tornam essencial o acompanhamento odontogeriátrico, principalmente quando há declínio cognitivo, que exige estratégias personalizadas. "O Odontogeriatra deve avaliar diversos fatores, incluindo a progressão da doença, o suporte familiar e a presença de cuidadores, traçando um plano de acompanhamento que pode começar no consultório e se estender ao domicílio", explica Denise.
Além da atenção ao impacto da idade na saúde bucal, Jahn reforça que a prevenção da infecção por P. gingivalis deve estar no foco dos Cirurgiões-Dentistas, que desempenham um papel essencial na conscientização da comunidade e na implementação de hábitos saudáveis. "Pacientes suscetíveis podem ter sua saúde afetada em diversos sistemas, incluindo o cérebro. O tratamento de doenças orais infecciosas, particularmente a periodontite, pode contribuir para a prevenção de distúrbios neurodegenerativos". Ele destaca a importância do diagnóstico precoce da periodontite e da individualização dos planos de tratamento, considerando a condição médica e cognitiva de cada paciente. "Enxaguatórios antimicrobianos, escovas interdentais, escovas elétricas e irrigadores orais são aliados na manutenção da saúde periodontal, especialmente para aqueles com limitações motoras", conclui.
Ainda que as evidências sobre a relação entre periodontite e Alzheimer estejam em fase de consolidação, os especialistas concordam que a prevenção é o melhor caminho. A higiene bucal eficaz, o acompanhamento odontológico desde a infância e as consultas periódicas ao Cirurgião-Dentista podem ajudar a evitar doenças periodontais e, possivelmente, seus impactos em outras condições de saúde.
Por Swellyn França